Eva era uma criança surpreendente, tão surpreendente, que tinha o mundo aos seus pés. Os pais faziam o que podiam para dar-lhe uma boa infância, uma garota cujo tinha vários amigos, brinquedos, boas notas na escola, obediente, porém nada disso não a satisfazia, ela não era mimada, nem era carente. Durante a semana sempre ia a escola estudar e ‘’exibir’’ suas bonecas às amigas, elas a tinha como uma rainha, Eva, tinha um grande senso de liderança. Nos fins de semana todas elas se reuniam na casa de uma das meninas do grupo, para conversar e fazer um tipo de terapia, penteavam os cabelos enquanto todas elas criavam algum tipo de fantasia e chamavam de segredo, nenhum era real, passavam a noite toda inventando amigos imaginários, cansavam e dormiam.
Em uma dessas noites, Eva criou uma amiga imaginaria tão ‘’real’’ (para ela) que com ou sem aquelas meninas da escola ela tinha a quem contar historias sem que essas fossem espalhadas, Eva tinha achado em quem confiar, algumas vezes ela se sentia perdida, porém ela sempre recorria à essa amiga imaginaria, definitivamente, Eva nunca mais ficou só, sempre conversavam sobre, ‘’coisas de meninas’’, sobre artes, era impressionante como elas tinham afinidade, discordavam em algumas coisas, poucas, embora Eva gostasse mais de chocolates e a sua amiga preferisse balas.
Eva tinha crescido um pouco, sua forma de pensar se tornou mais adulta em relação às outras crianças que queriam apenas brincar, ela aprendia os valores de uma vida social a todo o momento, sua conduta moral era moldada a todos os dias, aprendeu a dividir, a ajudar, embora não em uma realidade convencional, para todos, não era uma realidade convencional, ela estava enlouquecendo, uma menina conversando com o “vento”, brincando como “vento” pra os outros, Eva estava enlouquecendo. Porém para Eva, tudo era normal, não havia nada demais em ter uma amiga que todos não poderiam ver, ela conseguia. Seus pais acharam tudo aquilo estranho e decidiram enviar Eva a uma psicóloga.
Chegando na sala, a psicóloga contou de forma lúdica para Eva que nada disso era real, que ela deveria se apegar ao que era visível, porém Eva disse que, não existe graça ao que é visível, somente no que é invisível há mistério, e isso ninguém ver, essas coisas a agradavam. A psicóloga achou estranho, aquela criança falando como uma pessoa de idade avançada, porém a pequena garota tinha realmente razão. Com mais algumas sessões de terapia, Eva estava farta de dizer que realmente conseguia acreditar que sua amiga realmente existia, decidiu negar a cria de sua imaginação, e a psicóloga a deixou ir embora. Finalmente Eva estava a salvo.
Passou alguns dias sem lembrar de sua amiga imaginária, até que um certo dia, comendo balas, lembrou-se e resolveu chamar sua imaginação, tentou muitas, muitas vezes, estava cansada de tentar fazer com que sua amiga a escutasse, até que desistiu. Com o passar dos anos, Eva começou a escutar sons que normalmente não escutara, ela tinha finalmente reencontrado o fruto de uma mente fértil; Sua amiga, sem nome até então, queria saber o motivo da mentira, eram tão leais, Clara, e Eva tiveram uma longa e demorada discussão sobre verdades e mentiras, Clara tinha se afastado de maneira que não mais voltaria a se falar com tanta frequência nem tanta “verdade”, não se tratava de uma relação falsa, tratava-se de uma relação de lealdade quebrada por mentiras, negações.
Eva cresceu, porém ainda guardava doces lembranças de Clara, sentia falta das noites na casa das amigas, das conversas jogadas fora, de dividir balas, chocolates, brincar com o vento, o fato é que Clara, era fruto de uma imaginação infantil que tinha se tornado real para Eva, ambas eram irmãs, Clara desapareceu com o passar dos anos, tornaram-se conhecidas estranhas, Eva cuidou de sua vida, ocupou sua mente com coisas mais imediatas, não tinha mais tempo para uma amizade imaginária. Quanto a Clara, essa desapareceu.