quarta-feira, 10 de agosto de 2011

(Quase) heroi

“Sempre era assim, começava com suor e logo após sentia calafrios, seus pés estavam paralisados e suas mãos quase não mexiam mais, socorro!”

O menino acordava sempre nessa parte do sonho, já tinha ficado dias sem dormir, mas todas as vezes que ele tentava ao menos descansar os olhos, ele via a cena de um homem com uma máscara preta no rosto, apontando uma arma para uma pessoa, que rapidamente parecia sensível em meio a tanto sangue e lágrimas, porém com um ar de vitória, sempre.

O menino cresceu em meio a fábulas de reinos e mundos paralelos onde sempre havia um guerreiro que servia com bravura e orgulho a sociedade na qual pertencia, como de praxe, sempre havia também um vilão e sempre muito mau, sempre disfarçado de bom moço. Viveu também em meio a fotografias antigas de seu pai, fotografias nas quais mostrava a aparência de um homem quase velho o suficiente para ter sobrancelhas e bigode branco, e sempre com uma expressão de raiva, um homem amargurado.

Certo dia na escola desse rapaz, todos sempre falavam dos seus pais, de como eles eram compreensíveis, responsáveis, e inúmeras qualidades que se pode dar para tal pessoa, logo começou a dizer que seu pai era um verdadeiro herói, que tinha lutado em conflitos no oriente e que logo ganhou uma fama de herói que rapidamente foi tomada pelo governo local que necessitava de uma imagem melhor no momento.

Quanto à morte do pai do menino, bom, foi morto a facadas por algumas pessoas, nunca souberam o paradeiro das pessoas que o mataram, alguns já haviam até morrido, outros não.

Logo que o menino chegou em casa, a mesma estava vazia, ele foi aos pertences de seu pai em uma caixa escondida pela sua mãe, por alguma razão ela não queria que o garoto não fosse mexer naquela caixa, mas mesmo assim foi de encontro aquela caixa, encontrou algumas cartas antigas, alguns planos no qual o garoto não entendia o que estava escrito, viu algumas roupas antigas e fotos de algumas pessoas riscadas de vermelho com um símbolo estranho.

Entre eles sua mãe, e a sua própria foto, o menino achou estranho, e leu uma das cartas que haviam na caixa, em um trecho da carta havia o esclarecimento do que o símbolo dizia, e de forma resumida, era uma espécie de controle de suas vítimas.

O menino chorou pois percebeu que seu pai não era um herói, e sim um sedento por sangue, matava não pela honra nacional, que fosse, não justificaria.

A porta da frente da casa bateu e a sua mãe o escutou chorando no cômodo que nunca era pra ele ter entrado, ela por sua vez se ajoelhou e o abraçou, afinal, nada mais tinha o que esconder. O menino leu um dos trechos de uma carta que foi enviada à um de seus “amigos”.

“(...)Fiz uma das maiores besteiras além de ter dormido com aquela mulherzinha medíocre, eu a engravidei, não sei se mato ela ou espero a peste nascer para tirar a vida de uma criatura chorona, não aguentarei conviver com um ser comparável a mãe.(...)

O menino continuou a chorar e perguntou o motivo de tanto segredo, e a mãe respondeu ao menino que era para protegê-lo de algo que ele nunca superaria, ou que se superaria ficaria com algumas sequelas, e que ela nunca aguentaria ver a imagem de seu filho mal.

O menino perguntou se o pai dele tinha realmente sido um herói como ela sempre o contou:

- Mãe, meu pai era um heroi, não era?

 A mãe respondeu quase que sussurrando:

- Não, um sanguinário.

Logo ele entendeu que suas origens orientais não seriam por outra razão, sua mãe quase sacrificou sua própria vida para fugir daquela aldeia no oriente, pois estava sendo ameaçada pelo homem que amava, e o filho era a única razão para ela não continuar ali.

O menino descobriu que a pessoa que ele sempre via nos sonhos, o encapuzado era o sanguinário, e a pessoa rapidamente frágil no chão era ele mesmo, porém a pessoa no chão nunca morria antes do que estava com uma arma, afinal esse era morto por meio de facadas por uma mulher.

Omissões as vezes são para um bem, ou são apenas omissões.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Como de costume

Como de costume, às 4 da manhã com a cabeça doendo, ele acordou olhou para o lado da cama e não havia ninguém ao seu lado, ele escutou um batuque de panelas na cozinha, sentiu-se tranquilo após perceber que tudo estava bem. Levantou-se e foi caminhando por um longo corredor até a cozinha. Lá estava ela, de cabelos brancos, debruçada sobre uma pia cheia de louças limpas, ela era assim, perdia o sono e ia lavar louças já lavadas, varrer a casa ou tomar um café. Seus filhos não os entendiam, ‘’como pode alguém acordar a essa hora da manhã e fazer tanto barulho?’’ aos que os viam somente como um casal, “ Casados há 40 anos? Isso é farsa!”  Ninguém sabia o que os dois haviam passado.
Jonas.
Certo dia, uma enchente levou uma boa parte da safra dos pais de Jonas embora, houve seis dias consecutivos de forte chuva, Jonas e seus pais não sabiam o que fazer para contornar tal situação, resolveram e chegaram a somente uma alternativa, pegar os sacos que não foram encharcados e colocar no caminhão e partir para a cidade grande. Os primeiros meses, Jonas e seus pais sofreram por terem apena milho para as refeições e somente um carro para dormir, enquanto parte do dia, todos iam para a feira tentar vender a produção. Quando conseguiam vender alguma coisa, era muito pouco, sobreviveram. Ele nasceu em um pequeno vilarejo, onde fazia calor quase todos os meses, seus pais trabalhavam em uma roça e logo muito cedo, Jonas teve que abandonar os estudos para começar a trabalhar colhendo milho para o sustento da família, cuja parte da safra, era destinada ao consumo interno e a maior parte era destinada a uma pequena feira de uma grande cidade, cresceu em meio a toda loucura oferecida por aquele ambiente.
Sandra
Ela se chamava Sandra. Sandra e uma de suas irmãs cresceram em meio a muitos brinquedos, durante cada semana ganhava sempre presentes de seus tios, ou irmãos que moravam no exterior, vivia como se fosse filha única, porém uma filha única mimada que sempre frequentou as melhores escolas, tinham uma base famílias muito sólida, porém muito preconceituosa, no qual o valor de uma pessoa era medido conforme suas propriedades, por carros, viagens, saldo em contas bancárias, cargos ocupados em governo ou qualquer outra empresa, para os pais de Sandra, o caráter viria sempre em segundo plano. Sandra achava injusto medir caráter por bens, ela estava decidida a provar para os pais que todos estavam errados.
Em uma manhã ensolarada de quarta-feira, já beirava as dez, Jonas, que tinha conseguido estabilidade para levar uma vida digna e diferente do interior, avistou uma moça pouco alta com um sorriso no rosto, o sol batia em seus lábios de forma que deixara mais brilhantes do que o normal, seus cabelos quase enrolados tinham um tom reluzente, diferente de tudo o que ele havia visto por toda a vida. Essa moça era conhecida por sua simpatia, beleza, generosidade e caráter, Jonas se interessou de forma absurda, que conforme ela andava entre os pequenos espaços das barracas, ele a seguia constantemente com o olhar, até que certa vez, essa moça parou na barraca de Jonas e pediu algumas verduras, logo já estavam íntimos, até que Jonas tomou a atitude de convida-la para jantar logo após o expediente, trocaram telefones, não demorou muito para que Susana revelasse o seu nome.
 Susana e Jonas ficaram muito próximos depois de alguns encontros, todos o invejavam por ele ter conseguido uma mulher de tamanha beleza, Susana já havia conhecido os pais de Jonas já os tinha visitado no sítio, porém Susana nunca levou Jonas à casa de seus pais. Jonas sempre cobrava um encontro entre todos, mas, Susana tinha vergonha de quem Jonas era, um feirante. Houve uma tarde nebulosa no qual os dois brigaram de forma bruta, até que Susana pediu para ele a deixar na casa de sua irmã, Sandra.
Sandra II
Sandra depois de várias decepções com os pais tentando provar a sua verdade, decidiu abstrair-se de todos os problemas gerados por conta de dinheiro proporcionado por sua família. Chegando em um bairro de classe media, haviam vários prédios iguais, Jonas estacionou o carro na frente de um deles, e Susana ligou para Sandra descer e ajudar com algumas comprar que ela havia feito.
Sandra e Jonas trocaram alguns olhares e os convidou para subirem até a seu apartamento, Sandra se demonstrou mais do que humilde quando foi questionada sobre a posição dos pais em relação a profissão de Jonas, diga-se de passagem, se existe uma característica no qual Jonas presasse em uma mulher seria a humildade, Susana achava um absurdo a posição de sua irmã, ela resolveu terminar o namoro duradouro que havia tido com Jonas, e por longos meses os dois haviam perdido contato.
Passado algum tempo Jonas e Sandra haviam se encontrado por acaso em uma loja qualquer. Sandra perguntou o que ele estava fazendo, até que chegou o momento dela o convida-lo para fazer uma visita, os dois foram juntos, como amigos, compraram algumas besteiras para comer. Subiram novamente, Jonas percebeu que a casa de Sandra estava diferente, mas não só a casa estava diferente, Sandra estava diferente, conversaram por horas.
Em certo momento Sandra e Jonas ficaram sem assunto e por ventura se beijaram e passaram a noite juntos, arrepios, sussurros, respirações ofegantes, batimentos cardíacos acelerados, descanso, ali, logo ali naquele momento, Sandra e Jonas haviam se encontrado pelo resto de suas vidas. Eles resolveram assumir o seu relacionamento, primeiro à eles mesmos, só depois a sociedade, que menos importava para os dois.
Sexta à noite, havia um jantar em família na casa de Jonas. Sandra compareceu da sua melhor forma, os que estavam à mesa, a trataram de uma maneira muito educada e acanhada, os pais de Jonas, a acharam uma mulher incrível, ela tinha todos os atributos perfeitos de uma grande mulher, não por te viajado parte do mundo ou por ter pais magnatas, Sandra era, gentil e verdadeira, a cada movimento que ela fazia os deixavam maravilhados, a cada historia que contava os deixavam mais encabulados, ela conseguia passar boas impressões sem ser uma pessoa rude. O jantar já estava no final quando o telefone de Sandra tocou, e era sua irmã, Susana. Haveria uma festa surpresa para comemorar o aniversário de sua mãe, Sandra sentiu-se no dever de convidar todos os familiares de Jonas, porém ela já sabia o “risco” que correria.
Era em uma casa com muros altos, grandes jardins, Jonas compareceu e sentou-se em uma mesa um pouco distante dos outros, logo ele notou que praticamente todos os políticos do estado estavam reunidos naquela casa, e que toda as pessoas nas quais Sandra cresceu eram gente completamente sem conteúdos, onde dinheiro viria em primeiro lugar em suas vidas e logo após, bom, não existia nada além da conta bancária. Os pais de Sandra queriam apresentar toda a família para os que estavam presentes, Susana foi com o novo namorado, um michê, filho de deputado que pagava de empresário. Sandra não foi.
Jonas perguntou o motivo dela não ir, e ela explicou que só iria se pudesse apresentar Jonas, e que quanto a isso os seus pais se recusaram a aceitar que sua filha estava envolvida com um feirante imundo, e sem “princípios”. O pai de Sandra tentou matar Jonas a qualquer custo, era uma vergonha aquilo para a família, inadmissível.
Anos se passaram e os dois não tinham o menor contato com a família de Sandra, Susana e o michê se casaram e tiveram filhos, moravam em um sítio no qual o pai do rapaz tinha “doado” antes de seu mandato ser cassado, não chegaram a ter uma vida conjugal de maneira “decente” (partindo do que você chama de decência), eram apenas mais um casal de caseiros imundos... Porcos, uma vergonha para os pais, e para eles mesmos. Ridículos.
Sandra e Jonas se casaram em uma cerimônia simples, porém, encantadora. Os pais de Sandra compareceram, mas sempre com um ar de desaprovação. Já os de Jonas ficaram encantados quanto a esposa que seu filho arrumara. Logo, os dois multiplicaram seus bens e criaram os filhos com princípios morais aceitáveis. O tratamento dos pais de Sandra mudaram para com Jonas e sua família, porém Jonas ainda se sentia um “intruso” em todo aquele circulo vicioso de falsidade.
Não precisou muito para que Jonas e Sandra percebessem que se amavam de maneira verdadeira, não de maneira interesseira. E Como de costume, 40 anos se passaram, e ela continuava a mesma mulher e ele o mesmo rapaz que conheceram há anos atrás.